COMO O CÃO APRENDE


Alguns aspectos teóricos

"A única coisa em que dois treinadores de cães concordam é que um terceiro está errado"

A frase acima é uma brincadeira bem conhecida entre os que lidam com cães e ilustra muito bem a diversidade de métodos usados pelos treinadores. Algumas vezes estes métodos aparentam ser conflitantes entre si. Como cada cão é um ser de características únicas, a diversidade de métodos se justifica. Entretanto, para serem eficazes, os métodos precisam estar baseados na mesma premissa: o conhecimento dos mecanismos de aprendizado dos cães. O treinador tem que ir além dos métodos e chegar a esta fonte de conhecimento.
As bases do aprendizado canino são fundamentadas no condicionamento clássico e no condicionamento instrumental. Com estes dois conceitos entendidos, mais criatividade e um pouco de sensibilidade, podemos fazer quase tudo em adestramento.


Condicionamento clássico:

Consiste na substituição de estímulos. Ivan P. Pavlov (1849/1936), fisiólogo russo, quando estudava a atividade digestiva dos cães, descobriu que apenas o som de seus passos no laboratório, repetidas vezes associados à carne que era apresentada aos cães, provocava a salivação destes. Este cientista verificou então que "Um estímulo, antes neutro, adquire o poder de provocar a resposta que originalmente era provocada por outro estímulo" :

A) COMIDA = SALIVAÇÃO
- Comida é chamada de estímulo incondicionado
- Salivação é a resposta incondicionada, pois é provocada pelo estímulo incondicionado.

B) COMIDA + SOM DE PASSOS = SALIVAÇÃO (CONDICIONAMENTO)
- Som de passos é chamado de estímulo neutro pois a princípio não tem nenhum significado para o cão.

Após várias repetições do condicionamento do item B acima, o som de passos, antes um estímulo neutro, passa a produzir como a resposta, a salivação :

C) SOM DE PASSOS = SALIVAÇÃO (RESPOSTA CONDICIONADA)
- Som de passos transformou-se em estímulo condicionado pois agora produz a resposta que antes era produzida apenas pela comida.

Este é o princípio do condicionamento clássico.

Em nosso trabalho com os cães podemos usar o seguinte exemplo: apresentamos um brinquedo para o cão , falamos uma palavra "X" e ele se excitará, não por causa desta palavra mas por causa do brinquedo.

BRINQUEDO + PALAVRA "X" = EXCITAÇÃO

Depois do condicionamento :

PALAVRA "X" = EXCITAÇÃO

A partir daí o brinquedo passa a ser um reforço para manter o condicionamento, devendo aparecer quase todas as vezes que se fala a palavra "x", caso contrário este condicionamento irá se enfraquecendo.

Através do condicionamento clássico podemos, entre outras coisas , manipular o estado de ânimo e a atitude do cão. Por exemplo: apenas usando a voz fazer com que ele tenha o entusiasmo e a atitude correta para o trabalho.

Determinantes da força do condicionamento:

- Quanto maior o número e freqüência das associações de estímulos , maior o condicionamento. Ou seja, quanto maior o número de vezes que o exercício de condicionamento for repetido melhor sua eficiência.
- Na fase de condicionamento, o estímulo neutro deve sempre preceder o estímulo incondicionado. Ou seja, no exemplo acima a palavra "x" deve sempre preceder a apresentação do brinquedo.
- Quanto menor o tempo decorrido entre um estímulo neutro e um incondicionado, mais eficiente será o condicionamento. Usando o mesmo exemplo acima, após dizer a palavra "x" o brinquedo deve ser dado no menor intervalo de tempo possível.


Condicionamento Instrumental :

Edward Lee Thorndike (1874/1949) foi um dos cientistas que estabeleceu a base do condicionamento instrumental ou operante. No que se refere a nós, treinadores de cães , este princípio pode ser singelamente resumido em "aprendizagem por conseqüências recompensadoras"
Por exemplo, quando se ensina a um cão os comandos básicos oferecendo comida como prêmio (reforço) pelo exercício bem feito, após algumas repetições o cão saberá que para atingir seu desejo (comida) precisará executar corretamente determinado exercício. Desta forma o cão faz determinado exercício sabendo que esta atitude é um instrumento para fazer vir o reforço desejado (comida, brinquedo, etc.)
Fatores que influenciam a força do condicionamento:
- quantidade e freqüência de reforço administrado e suas variações.
- O valor do incentivo ou da motivação que o reforço exerce sobre o cão.
- A demora na administração do reforço.

No adestramento atual, o condicionamento clássico é bastante usado para manipular o estado de ânimo e atitude do cão, enquanto o condicionamento instrumental está mais ligado ao ensino da técnica.


Mais alguns conceitos importantes :

É importante também o conhecimento de que o processo de aprendizagem envolve :

ESTÍMULO COMPORTAMENTO CONSEQÜÊNCIA

O Estímulo pode ser, por exemplo, o comando de voz do condutor, ou o movimento do figurante. Este estímulo provocará um comportamento no cão (desejado ou não), seguido necessariamente de uma conseqüência (reforçadora ou inibidora) do comportamento apresentado.
O reforço ou inibição conseqüente deve ser apresentado ao cão imediatamente após o comportamento apresentado. Caso contrário, a conseqüência não será associada ao comportamento precedente. Vale o exemplo de que um petisco dado ao cão vários segundos após ele ter executado um exercício corretamente não trará associação para o cão entre o exercício executado e a comida.
Outro ponto de muita importância é que o reforço ou inibição depende muitas vezes da perspectiva de cada cão. Uma mesma ação que pode estar gerando reforço em um cão pode estar sendo inibidora para outro. Por isto é fundamental sempre basearmos nossas avaliações na única coisa que é palpável para nós - o comportamento.
Vejamos:
Ação reforçadora: tende a reforçar o comportamento desejado tanto em intensidade quanto em quantidade.
Açao inibidora : tende a inibir o comportamento indesejado tanto em intensidade quanto em quantidade.
Desta forma, se o emprego de uma ação que a princípio acredita-se ser reforçadora de um comportamento tem como conseqüência a diminuição do mesmo, então para a perspectiva do cão em questão, a ação empregada está sendo inibidora.


Conclusão:
Não se pretendeu com o presente artigo entrar em detalhes acadêmicos sobre comportamento ou psicologia animal, nem esgotar o assunto do ponto de vista do treinamento de cães. Pretendeu-se abordar pontos julgados importantes e que devem ser conhecidos por todo bom adestrador.
Não se pode "visualizar" os impulsos que movem o cão, nem se pode saber o que se passa em seu interior, o que realmente está acessível é o seu comportamento. Se no treinamento os objetivos estão sendo atingidos, moldando-se o comportamento do cão de forma desejada, os estímulos reforçadores e inibidores estão sendo usados de forma correta. Caso contrário, é necessário rever o método, usando-se como base o que realmente importa - nosso conhecimento atual de como o cão aprende.

Sergio de Oliveira
Presidente da Sociedade Valeparaibana Cães Pastores Alemães

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